Cuidados Paliativos

por: Cristina Seabra 



Para a Organização Mundial de Saúde (OMS) os Cuidados Paliativos consistem numa "abordagem que visa melhorar a qualidade de vida dos doentes - e das suas famílias - que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado, através da prevenção e alívio do sofrimento, com recurso à identificação precoce e tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, como a dor, mas também dos psicossociais e espirituais". Os cuidados paliativos regem-se por princípios éticos rigorosos partilhados por uma equipa interdisciplinar de profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, psicólogo, assistente social) e voluntários, no contexto de uma prática multidisciplinar e diferenciada, sustentada em quatro pilares de atuação: controlo de sintomas, comunicação, apoio à família e trabalho em equipa. Consideram que a fase final da vida pode representar um momento privilegiado de reconciliação e crescimento pessoal tratando, por isso de forma holística e integrada o sofrimento físico, psicológico, social e espiritual do doente, baseando-se no acompanhamento, na humanidade, na compaixão, na disponibilidade e no rigor científico. Em cuidados paliativos o respeito pelos princípios da autonomia e da dignidade, direitos que garantem a liberdade de cada um de nós são especialmente acautelados. 



O doente em fim de vida, fragilizado na sua condição terminal, enfrenta ameaças complexas de ordem fisica, emocional e espiritual impondo-se, por isso, o respeito incondicional pela sua dignidade. Acompanhar o sofrimento de um ser humano em fim de vida não é tarefa fácil e exige uma atitude de entrega e aceitação incondicional do outro, sem a qual não há ajuda possível. Quer isto dizer que necessitamos de crescer e amadurecer, de aceitar que a vida é feita de dualidade, de alegria e sofrimento. Só quem vive uma vida com sentido pode acolher outras vidas com sentido e ter a capacidade de, na hora da partida, as receber livre de julgamentos, preconceitos e expectativas, tarefa delicada e complexa. A promoção da autonomia de um paciente exige, também, uma atitude de valorização incondicional dos seus recursos e potencialidades, por frágil que seja a sua condição. O paciente, por seu lado necessita de entrar num processo de interajuda em que ora é dependente, ora é autónomo e independente. A experiência tem mostrado que essa aceitação nem sempre é imediata e requer o desenvolvimento de uma atitude de confiança de ambas as partes que leva o seu tempo a construir. À medida que o doente se revela na sua forma de ser, é possível identificar diferentes níveis de sofrimento e áreas que carecem de apoio e que, envolvendo questões que não estão resolvidas em nós, nos tolhem a capacidade de ajuda. 


Cristina Seabra é Pos-Grduada em Cuidados Paliativos e Pos-Graduada em Processo de Luto - Abordagem Integrativa. 

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O trabalho de "compaixão em equipa" é fundamental nestes momentos, uma vez que a partilha de inquietações, valoriza também, o sofrimento do ajudante. Numa relação de ajuda em cuidados paliativos é essencial ter consciência de que o ser humano, quando enfrenta a finitude, necessita de renovar o seu amor próprio, de conferir valor à vida passada e deixar um legado a quem amou. Ao olhar para trás, quem vê aproximar-se o fim da vida é muitas vezes confrontado com a dualidade das suas escolhas, com o vazio dos atalhos que abraçou e o isolaram dos seus entes queridos e do seu projecto de vida. Constatamos, pois, que os caminhos não vividos se impõem com nitidez na etapa final da nossa vida terrena e que, ao estar recetivos, vamos sempre a tempo de os revisitar, desenvolvendo " paz interior". A relação de ajuda neste tipo de cuidados é, por conseguinte, uma aprendizagem de vida, que pressupõe um tempo de entrega e recolhimento, humildade e ousadia. Recebemos e damos, damos e recebemos. Somos peregrinos e viajantes nesta caminhada e um dia partiremos. Rematando com o autor de O Principezinho: "Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós".