Poética da Substituição

Não é fácil substituir a indiferença dos sentidos pelo olhar que vê, mas podemos tentar. 

A porta que nos leva de um lado ao outro é a mesma para todos os seres humanos. É melhor fazer mais do que tentar. 

É preciso agir. 


Por: Fernanda Barata

Nos Hospitais públicos portugueses respira-se alguma dignidade mas, quando me pergunto: "é esta a dignidade que eu espero seja manifestada se acaso ficar doente?", a minha resposta é, muitas vezes, francamente negativa.

Lamento. E não lamento por mim, porque não estou doente. Porém, se não escrever estas palavras e um dia estiver doente, necessitada de serviços hospitalares fornecidos por um Estado a quem darei certamente o meu tempo por mais de 40 anos, nessa altura eu terei uma espinha entalada na garganta. Ora, eu não quero morrer assim: já agora que aqui cheguei, que respire até ao fim sem agrafos nas palavras.

No momento em que escrevo estas linhas, estou sentada numa sala-de-espera, num hospital distrital de Portugal. Encontrei aqui o espaço para o meu adiamento, mesas quadradas, cadeiras de plástico e um bafo de gente encavalitada nos corredores. Na ausência de melhor, sentei-me e liguei o computador. Tenho, no mínimo, três horas de espera. Atrás de mim, uma família: pai, mãe e uma filha adolescente, todos sentados em poltronas desemparelhadas nas quais se afundam como se caíssem num pântano sugador do ânimo vital. Ao meu lado, um lavatório onde funcionários de diversas categorias vêm, apressadamente, lavar as mãos. Parece que vêm aqui de propósito só para lavar as mãos e olham para mim com um trejeito de espanto. Quando a água corre da torneira muito alta eu penso, "que lavatório mal lavado, " e volto à tarefa reclamante de escrever o que penso para depois me calar ou alguém me vir dizer, "fizeste mal, três horas de espera não te dão o direito de pores a boca no trombone".

Finalmente, num canto da sala, um televisor do século passado berra canções portuguesas com o indispensável ingrediente das dançarinas rechonchudas de rabo ao léu. Não tenho nada a depor contra os rabos à vista mas chateia-me que a televisão esteja uns bons decibéis acima da minha suportável capacidade auditiva. Contudo, a mãe gotejou à filha,

- Gostava de ter um aparelho daqueles,

e apontou com o mindinho para o anúncio de aparelhos auditivos que foi passado uma dezena de vezes desde que aqui cheguei.

Eu tenho três horas de espera, por isso, o tempo para observar chega-me e sobra-me. Dêem-me licença: a mãe, de cara encostada à palma da mão, ressona; a filha, vidrada no telemóvel, desceu ao alheamento mais profundo que existe na mente humana - a alienação; o pai, lê um jornal desportivo, mas veio um enfermeiro medir-lhe a tensão e ele perdeu a paciência, atirou com as folhas amarrotadas contra si e disse,

- Vou "adormitar".

Veio, por fim, a enfermeira.

- Pode acompanhar-me, Dona Catarina? O seu marido está à espera para lhe dar um beijinho.

Não, não sou Catarina. Eu espero, apenas, mas acho simpático que ainda se prestem atenção aos beijinhos quando há tanta fome de tudo, e talvez porque há fome é que alguns ainda têm beijos para dar.

Na televisão recomeça o programa depois dos comerciais e anuncia-se em letras gordas, "a mulher que matou a filha em Santarém, em Junho passado, foi condenada a 19 anos de prisão por homicídio e ocultação de cadáver."

Horror. A jovem, que ficou sozinha na sala, levanta a cabeça. A repulsa é atraente, não é? E agora? A trabalheira que é afirmar os direitos pelas coisas bem-feitas. Se o mundo fosse perfeito é que era bom.

Mas, ao contrário - este mundo - este mesmo, puseram-no de pernas abertas e ele assim ficou, escancarado, vê-se-lhe as entranhas mais terríveis. Os horrores são agora publicitados exactamente da mesma maneira como se anunciam o sorteio do automóvel, as fraldas dos bebés e os livros de receitas naturais para todas as maleitas do corpo humano. As salas de espera dos hospitais não são excepção, como se vê.

Porém, a minha manhã começou agora e a minha vida vai longa, já devia estar habituada a estas coisas comuns. Ou não devia? Não sei. O meu avô, um homem do século passado, e a minha avó, uma mulher de há dois séculos passados (ah, pois é), tinham o hábito de me ensinarem a olhar a vida com algum sentido crítico. A culpa disto tudo, é deles. Quando olho à minha volta apetece-me apagar a televisão, dar umas revistas às pessoas para lerem, coisas ligadas à saúde, uns prospectos sobre intervenção primária, uns jogos de desenvolvimento cognitivo, ao menos, palavras cruzadas. Mas não, aqui afoga-se o tempo da pior maneira.

Já estive outras vezes neste hospital - que respeito - e cujas pessoas que aqui trabalham admiro pelo ânimo que insistem em manter-se activas com tão poucos recursos. Eu sei o que digo, já vi algumas fazerem magias de resistência, força e humanismo que me deixaram comovida. Se eu fosse o doente na marquesa, estaria profundamente grata mas o doente, quando desperta da anestesia, nem sabe o por lá aconteceu, na sala do bloco onde o aperaram com as pinças de recurso, o equipamento a ser substituído por duas vezes porque deixou de funcionar e os médicos e enfermeiros extenuados das horas e horas de pé, já sem forças e paciência.

Mas não sou eu. Eu só estou à espera na sala onde se espera não se sabe bem o quê. As pessoas, de uma maneira geral, não têm a noção das carências dos hospitais e não suspeitam dos malabarismos que fazem as instituições para se sustentarem. Há poucos recursos de tudo e não há verdadeiras sílabas para anotar o que é mais preciso.

Hoje, quando eu estava à porta do bloco, surgiu uma médica com um papel na mão e mandou chamar outra médica. Veio ela lá de dentro, fardada como convinha, touca e tudo, protecção bocal caída para o lado, um olhar de cansaço e um mau humor do género Adamastor nauseado. Após um diálogo que oscilava entre o amigável e o hostil, a primeira médica ditou à outra os doentes que iriam chegar para cirurgias,

- Para começar, só para começar,

e citou uma senhora de muitos anos internada desde o dia 19, a fazer jejum diário na esperança de, dia-após-dia, ser chamada à operação,

- E tem de ser hoje,

acrescentou,

- Hoje mesmo porque a família ameaça com decretos-lei de a mantermos em jejum desde que chegou ao hospital e eu respondo que não estou nada, mas mesmo nada, preocupada com isso, não posso é dar-lhe o pequeno-almoço e depois chamarem-na para cirurgia, é uma pescadinha-de-rabo-na-boca, percebes?

A outra sorriu com sorriso malandro.

Eu olho para o chão mas o chão é um buraco na minha alma. Penso na indignidade do jejum e digo para mim mesma que isto é - mas é mesmo - um peixe podre, de cú mal cheiroso enfiado pela goela abaixo, qual quê, pescadinha-de-rabo-na-boca a dar voltas a ver se encontra a barbatana é bom demais, mas não é a minha avó, nem a minha mãe, nem conheço a senhora e o meu corpo contorce-se de susto e medo.

Uma voz de homem, lá do fundo da copa, lança uma vespa no ar,

- E a administração? Já pensaram no que poupa a administração em pequenos-almoços?

A segunda médica, claramente enfadada, pergunta,

- Qual é a cama da senhora?

Tira a esferográfica do bolso e anota o número da cama nas calças da farda do bloco.

Eu penso, não, não é possível.

Na verdade, não sei se penso. Acredito que, ao final de três doentes serem descritos nas suas características sumárias das razões pelas quais têm de ser operados hoje, e de assistir à médica anotar os números das camas dos ditos na perna esquerda sobre o tecido verde da sua farda do bloco, tenho mesmo a certeza de não pensar mais. Eu não quero pensar. Eu nem gosto de pensar, na verdade. Quando fui para a Primária disseram-me que pensar era bom, mas não é. Não acredito. Creio sentir-me anestesiada por causa do cheiro a café que vem da copa, sobe-me um calor imenso no pescoço, sinto um nó algures e, então, lembro-me de pedir um copo de água,

- Não há copos de plástico, desculpe, mas a casa de banho é ali, as mãozinhas lavadas à torneira, talvez...

Eu, que estou a fazer uma investigação sobre dignidade em saúde, tenho dúvidas hoje sobre aquilo em que acredito. Neste país, todos fazem qualquer coisa para manter a funcionar as instituições públicas no âmbito dos cuidados de saúde e eu pergunto-me se não deveria, ao invés, inverter o meu estudo e realizar uma pesquisa sobre o desembaraço, o desenvencilho e o desencalacrar-se, tudo sinónimos para afirmar aquilo a que hoje assisti. Saía-me mais barato, era menos mau e mal não faria investigar precisamente o espírito de desenrasco à portuguesa.

Francamente falando, não sei se hei-de admirar estas pessoas ou se, pelo contrário, devo olhar com atenção para esta angústia interior que me assalta, por saber que os instantes mais críticos das pessoas, os momentos da sua fragilidade major por ausência de saúde, são por vezes trabalhados, literalmente, em cima do joelho, como tão corriqueiramente se afirma entre nós. Vejo-me atabalhoada de regras para cumprir, numa sociedade zelosa com impostos, obrigações e contribuições, mas percebo que estão ao cortar-me o pensamento com um machado chamado desorganização, iliteracia, disfunção, ineficácia, tudo coisas de burros acorrentados ao pasto da fome que somos todos, de um estômago cada vez mais subtilmente apertado.

Há porém algo que eu sei: sei que não posso ser indiferente e por não ser indiferente a isto que se passa é que eu estou, ainda, na sala de espera do mesmo hospital a escrever estas linhas. Porque, vejamos, o que está correcto é fazer as coisas bem-feitas e eu não quero ser sugada para esta máquina que trilha a minha inteligência, que esmaga o meu amor pelos doentes, a minha integridade e sentido de humanismo pelas pessoas que estão carentes. Não quero e não quero - mesmo - ser indiferente. Recuso afogar-me nessa fleuma gelada.

Passaram entretanto duas horas. Ou mais? Perdi a conta ao relógio do tempo. Neste momento está uma senhora auxiliar, de pé, a dobrar aventais de plástico sobre uma mesa, e como trabalha devagar aproveita para ver a rubrica de receitas. Coisa interessante, dizem as mãos da sua indolência enquanto o locutor berra,

- Ficava bem aqui uma salada verde, uns morangos, uma mozarela, porque o que é bom na vida, ou é caro, ou faz mal, ou é pecado.

Ela encolhe os ombros e silaba,

- Tá bem, tá.

(Escrevi "amor pelos doentes"?!)


Fernanda Barata