Para que serve a tristeza?

É fundamental ser tão eficaz a polir a dor como a dor emocional foi competente a miserar a nossa vida. 


Por: Fernanda Barata

A tristeza é uma emoção transversal ao ser humano. Ela cumpre uma importante função adaptativa desde não nos retire de forma prolongada o prazer ou o interesse pelas nossas atividades diárias. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, e sustentada por evidências científicas, a tristeza é muito útil na escolha dos trilhos que precisamos enfrentar ao longo da vida. Contudo, parece ser praticamente interdito, no mundo ocidental, uma pessoa sentir-se triste e, mais ainda, manifestar essa tristeza nos meios em que se move. Lembro-me de uma senhora que dizia:

- Já não saio. Não saio porque todos os meus amigos e amigas fazem um alarido enorme quando saímos, quando nos reunimos para jantar, por exemplo. Cada um tenta ser mais esfuziante do que o outro e tudo isso me parece falso. Deixei de ter vontade de fingir que estou feliz.

Apesar de a Ciência nunca ter afirmado que as pessoas que manifestam genuinamente a sua tristeza são menos resilientes diz-se, ao nível profissional, que estas pessoas são pouco funcionais. E afirma-se que as caras apagadas e tristonhas, num campo de compromissos profissionais diários, não serão capazes de resistir à pressão de muitas horas laborais, com obrigações vastas, espinhosas ou complexas. A métrica da infelicidade, se existe (mas os headhunters dizem que sim!), não é compatível com os números dos objetivos de desempenho que, ano após ano, as empresas colocam como meta aos seus colaboradores.

Por isso, ao sair de casa, o ultimo fato a vestir, o último pó de maquilhagem a colocar é, muitas vezes, o da falsa vitalidade e alegria, o derradeiro vigor e entusiasmo, e é bom que seja um excelente desempenho de papel para que ninguém note que estamos numa fase "assim-assim". 

O raciocínio é este: essas fases menos boas são dissimuladas, retiradas da existência normal de todos os dias, reprimidas para fundo do poço das lamentações onde - dizem os que nos vêm - residem os fraquinhos, os coitadinhos, os que manifestam a vida tal e qual como ela se apresenta. Neste raciocínio, os fortes não aparentam dificuldades e, portanto, não as têm.

De modo semelhante, é frequente que a família e os amigos exijam que não nos deixemos abater, que nos levantemos do peso melancólico com que a genética nos temperou, que nos ergamos das agruras diárias, que soquemos nessa dor que, por algum motivo, nos flagela; e que façamos tudo isso com um belíssimo sorriso no rosto. 

Por isso, quando estamos com aquele grupo de pessoas que tão bem nos conhece e por quem nutrimos um afeto maior, sentimos que triste é esse sentimento impeditivo do acolhimento da nossa tristeza. E assim bloqueamos o fluxo da lágrima esquerda quando a direita, disfarçada, há muito caiu para dentro da retina.

Em suma: ninguém dá tempo ao outro para acalmar a dor e digerir o seu espaço de perda, cansaço ou sofrimento.
Estar infeliz tornou-se uma lei que é quase vergonhoso violar. É necessário ser claramente lúcido o tempo todo e nunca esmorecer, por forma a nunca permitir que a tristeza tome conta de nós. Tornou-se necessário usar de um racionalismo que nos impeça de deixar essa emoção subir ao piso do olhar. E é fundamental ser tão eficaz a polir a dor como a dor foi tramada a miserar a nossa vida. E sobretudo: temos de ser iminentemente rápidos no fechar das feridas porque a nossa tristeza pode ser, para os outros, muitíssimo incomodativa. 

Nunca a Ciência afirmou que a tristeza não é guia, ao contrário: ela é a orientação que mostra para onde a dor nos leva depois de mastigada e digerida, até encontrar um novo espaço interior, resiliente e seguro.

A nossa sugestão: dê tempo a si mesmo para se entristecer e depois, sorrir no tempo que tiver de ser. 

Usufrua a vida e dê a si este presente: o espaço necessário para construir consigo um diálogo positivo. Soterrar a tristeza pode parecer um bom desempenho de luta mas é uma derrota infame do ser humano perante si mesmo. Peça ajuda, quando entender necessário, e erga-se desse momento doloroso quando sentir que o mundo interior está apaziguado e pronto a enfrentar a vida "lá fora". Só então, a porta se abre e tristeza liberta-se para dar espaço outros sentimentos e emoções.